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14.8.08

Sangue de Bandeirante


No início dos anos 60, quando o governo Castelo Branco concluía os estudos de uma proposta para a colonização e reformulação da política de valorização econômica da Amazônia, a iniciativa privada já fazia sua história. Em 1962, contratado pela Usina da Barra, Renato Sampaio de Almeida Prado se embrenhou na Amazônia, entre Barra do Garça e São Félix do Araguaia, tirando amostras de solo e abrindo fazendas.

Comprou também suas próprias terras e acabou permanecendo no sertão durante 20 anos, sob as mais adversas condições. Foi acometido por doenças, enfrentou a hostilidade dos “peões”, manteve contato com tribos xavantes, passou tantos imprevistos que fizeram dele um respeitado sertanista e conhecedor daquela região.

Almeida Prado, que viveu muitos anos em Jaú, costumava defender a exploração racional da Amazônia, onde dizia haver terras muito boas para a agricultura, principalmente em Rondônia e Maranhão. Porém, evidenciava que também havia áreas muito fracas e que não deviam ser tocadas.

No período em que viveu no sertão, seja a serviço do então proprietário da Usina da Barra, Orlando Ometto, ou cuidando de sua própria fazenda, a Tamakavi, o desbravador coordenou abertura de estradas a machado e facão, construiu ranchos, desmatou perto de seis mil alqueires de terras agricultáveis, cultivou pastagens e também participou de pescarias memoráveis com o jornalista e deputado Carlos Lacerda, na época seu companheiro.

Dificuldades

A vida na mata era dura. Na Tamakavi, que em 1972 foi vendida para o Grupo Silvio Santos, Almeida Prado chegou a enterrar 17 peões. Dadas as dificuldades de comunicação e transporte, eram sepultados no local. Morriam acometidos por doenças, acidentes ou por briga. Nesse período, cuidou também de 40 homens que haviam contraído maleita e que ficavam em redes estendidas em um rancho grande, sem parede, apenas coberto com palha.
Ary José Bauer, amigo de Renato, afirma que ele era uma pessoa de uma bondade profunda. “Adorava cantar músicas guaranis, modas de viola. Era muito dadivoso: o que se pedia, ele atendia na hora, o que fez dele querido entre os peões e amigos.”

Em sua experiência na Amazônia, Prado dizia que o fato mais marcante foi o contato com os índios xavantes. “Eles viviam em uma sociedade perfeita e eram muito mais organizados que nós, os chamados homens civilizados. Convivemos um bom tempo com 320 índios aldeados e todos me chamavam de indá, que na língua xavante quer dizer avô. Mara, minha mulher, era indá-peon, avô-mulher. Temos o que aprender com os índios”, disse em entrevista.
Renato Sampaio de Almeida Prado morreu em 24 de abril de 2006, aos 83 anos.

(Por José Renato de Almeida Prado, publicado em 26/08/2006 no jornal Comércio do Jahu)

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